Imprensa

Terça-feira, 13 de Março de 2018 - 14:01 - Atualizado em 13/03/2018 14:37

Utilização de Acupuntura e Vitamina D no tratamento da condromalácea patelar - Estudo de Caso

Artigo baseado no TCC do curso de pós-graduação em Acupuntura da aluna Eleonora Beltrami Comucci – CETN Campinas

Entre as patologias degenerativas que mais acometem o joelho, a condromalácea patelar é a mais frequente, também conhecida como "joelho de corredor". O rompimento da cartilagem hialina patelar pode ocorrer devido às variações morfológicas ou incongruências anatômicas, as quais provocam estresse articular e exercem força mecânica anormal nas superfícies articulares dos joelhos (Grelsamer et al., 1993; Tanamas et al., 2010; Tuna et al., 2014). Essa cartilagem é um tecido altamente especializado em resistir a forças de compressão, sendo sua função principal, facilitar o movimento entre as superfícies articulares. É, porém, facilmente danificada pelas forças de tensão, e sua capacidade regenerativa é limitada e está frequentemente envolvida em traumas, patologias inflamatórias e degenerativas. As alterações da cartilagem hialina tendem a evoluir e podem rapidamente levar à inaptidão funcional da articulação, estando entre as causas mais freqüentes de inaptidão crônica (Macarini et al., 2004)

Os traumas esportivos, em geral, e o excesso de atividade física, como a sobrecarga de peso ou corridas excessivas, são frequentes agentes etiológicos da condromalácea patelar em praticantes das mais variadas modalidades esportivas, acometendo principalmente as mulheres e jovens (Moore e Dalley, 2001; Zhang et al., 2003; Witvrouw et al., 2004).

É caracterizada por dor, edema e crepitação retro-patelar, descrita como uma desconfortável sensação rangedora, além de aumento da sensibilidade local que está associada ao desequilíbrio funcional do músculo quadríceps femoral, especialmente com a atrofia do músculo vasto medial, e com o encurtamento do trato iliotibial (Guo et al., 1996; Post, 1998; Moore e Dalley, 2001; Asplund e St Pierre, 2004; Machado e De Amorin, 2005). 

Muitos métodos de tratamento invasivos têm sido propostos, incluindo perfuração, excisão dos defeitos ósseos e tecidos moles, e, cirurgia de realinhamento patelar (Caton e Dejour, 2010). Porém nenhum desses tratamentos resultou em recuperação absoluta.

Além dos métodos cirúrgicos, as opções de tratamento mais conservadoras abrangem: medicação oral alopática (anti-inflamatórios não esteroidais), nutracêuticos (glucosamina, condroitina, gorduras poliinsaturadas, S-adenosilmetionina, frações não saponificadas de abacate e grãos de soja, metilsulfonilmetano, vitaminas C, D e E), injeções de ácido hialurônico ou plasma rico em plaquetas (Gallagher et al., 2015).

A vitamina D (25 (OH) D) tem um papel importantíssimo na mineralização, remodelagem e manutenção do metabolismo ósseo, juntamente com o cálcio. Portanto sua deficiência pode estar envolvida na patogênese de distúrbios ósseos. E pode ser obtida através da exposição à luz solar ou ingerida em forma de cápsulas ou gotas (Goula et al., 2015)

Na visão da MTC, de acordo com as teorias dos 5 elementos e YIN-YANG, nas patologias musculoesqueléticas identificamos comprometimento nos sistemas YIN, responsáveis pelos aspectos estruturais, e nos elementos: Terra, responsável por reger os músculos; Água, responsável por reger os ossos; Madeira, responsável por reger os tendões.

A condromalácia patelar se encaixa na categoria das Síndromes Bi, causada por excesso de tensão e lesão dos músculos e tendões. O enfraquecimento induzido pelo esforço é o principal fator envolvido em sua origem e ainda podemos considerar a deficiência constitucional de fígado e rim, invasão de fatores patogênicos que causam estagnação de QI e Xue levando à obstrução dos meridianos que passam nesta região, causando dor.

Estes desequilíbrios podem ser corrigidos através da seleção de determinados pontos de acupuntura com ações energéticas específicas nestes elementos e sistemas, ocorrendo assim reequilíbrio e remissão total ou parcial dos sintomas.

O objetivo deste estudo foi averiguar a hipótese de que para a condromalácia, a vitamina D seria eficiente na redução da dor espontânea (joelhos em repouso) juntamente com aplicação de acupuntura sistêmica.

O paciente do estudo é do sexo masculino, 31 anos de idade, vegetariano, relatou dores nos joelhos que se iniciaram aos 17 anos de idade. Recentemente, após consultas com Médico Ortopedista, o diagnóstico ocidental foi de condromalácia patelar bilateral (grau I), provavelmente ocasionada pela realização de atividades esportivas de alto impacto (corrida e spinning). Relatou que as dores ocorrem após realização de esforço físico e melhoram temporariamente com aplicação de gelo. Houve melhoras nas dores após trabalho de fortalecimento muscular, pois antes “as patelas eram extremamente móveis” - nas palavras do próprio paciente. A principal queixa do paciente é dor nos joelhos. Além de má digestão, pedaços de alimentos não digeridos nas fezes, dificuldades em dormir e ausência de sono reparador, espermatorréia e irritabilidade leve.

EXAME DA LÍNGUA: Lingua pálida e ligeiramente ressecada (deficiência de Xue). Apresenta laterais inchadas, fissuras no terço médio e marcas dentadas (deficiência de QI do baço), sem revestimento. Ponta levemente avermelhada. 

OITO CRITÉRIOS: - interno/externo - yin/yang - deficiência - calor falso  

DIAGNÓSTICO: Estagnação de QI e Xue; deficiência de Xue, QI e YIN; distúrbio do Shen.  Mais especificamente: deficiência de QI do baço, deficiência de YIN e QI do rim, deficiência de XUE e YIN (especialmente do coração e fígado). 

PROPOSTA TERAPÊUTICA: Mover e tonificar QI e Xue; Tonificar YIN do rim, coração e fígado; Acalmar Shen; Tonificar elementos em desequilíbrio: terra, água e madeira.

SELEÇÃO DE PONTOS:

E32 – Futu – “Coelho de Tocaia” (VENTO UMIDADE) Ativa o canal e alivia a dor, dispersa vento umidade. Move o QI da perna, melhora a dor e entorpecimento dos músculos da perna e joelho.

Ponto Extraordinário Membro Inferior 11 – Heding – “Pico da Garça Azul” Ativa Qi e Xue, beneficia articulação do joelho. Alivia dor e inchaço. 

E34 – Liangqiu – “Cume da Colina” Ponto Xi (fenda) do canal do Estômago. Ativa o canal e alivia a dor, harmoniza estômago. Indicado para dor nos joelhos, dificuldade de flexionar e estender os joelhos e dor epigástrica.

E35 – Neixiyan – “Nariz de Bezerro” Ativa o canal e alivia a dor, dispersa vento umidade e reduz inchaço. Junto com o Xiyan medial (Ponto Extra 16) forma os “Olhos do Joelho”.

E40 – Fenglong – “Saliência Abundante” Ativa o canal de alivia a dor. Distúrbio de atrofia e obstrução dolorosa no joelho e pernas. Transforma fleuma e umidade, acalma o espírito. 

BP6 – Sanyinjiao – “Intersecção dos três Yin” Ponto de encontro dos canais do Baço, Fígado e Rim. Tonifica baço e estômago, elimina umidade, harmoniza fígado e tonifica rins, harmoniza o jiao inferior, regula micção e beneficia órgãos genitais, acalma o espírito, revigora xue, ativa o canal e alivia dor.

BP9 – Yinlingquan – “Nascente Yin da Colina” Regula baço e resolve umidade, abre as passagens de água, beneficia o jiao inferior. Fezes com alimentos, emissão seminal, edema e dor nos membros inferiores.

BP10 – Xuehai – “Mar de Sangue” Revigora o sangue e dispersa estase, esfria e trata diversos distúrbios do sangue.

R3 – Taixi – “Riacho Supremo”Nutre Yin do rim e remove calor por deficiência. Tonifica e ancora Yang do rim. Ancora Qi e beneficia o pulmão. Fortalece a coluna lombar. Melhora emissão seminal.

F8 – Ququan – “Nascente na Curva” Ponto he mar e ponto água do canal do fígado. Dispersa umidade-calor do jiao inferior, beneficia órgãos genitais, revigora e nutre o sangue e nutri yin.

ADMINISTRAÇÃO DA VITAMINA D: A partir da décima primeira sessão, será administrada ao paciente uma dose diária de 5.000 UI de vitamina D (25 (OH) D) em cápsulas de gel, junto com a maior e mais gordurosa refeição do dia (almoço). A orientação caso o paciente se esquecesse da dose diária foi de que a ingerisse no dia seguinte, dobrando assim a dose.

TRATAMENTO: Estavam previstas dez sessões apenas com acupuntura para verificar a resolução da dor e após estas sessões iniciais a introdução da Vitamina D como forma de resolução da dor espontânea remanescente. Após dez sessões houve reavaliação do quadro e necessidade de prorrogar o tratamento também com acupuntura. Após a realização de mais dez sessões, totalizando vinte aplicações, a dor em repouso foi eliminada restando apenas episódios dolorosos após realização de esforço físico muito intenso. A técnica utilizada foi a de Ação Energética dos pontos, para resolução da dor espontânea (joelhos em repouso) e correção dos demais desequilíbrios.

RESULTADOS: O paciente começou a referir melhora da dor espontânea e ao movimentar-se, a partir da quarta sessão (escala visual analógica foi de 10 para 7). Na décima sessão os níveis de dores referidos eram de 5 para dor espontânea e 7 ao movimentar-se e ao esforço intenso.Na décima primeira sessão foi introduzido VIT D. Nota-se, através dos registros utilizando a escala visual analógica, que houve melhora significativa na dor em repouso (de 5 para 0) após a administração da Vitamina D, assim como leve melhora na dor ao movimentar-se e após movimento intenso.

TABELA:

SESSÃO 1 a 3 4 a 6 7 a 9 10 11 a 13(vit D) 14 a 16 17 a 19 20
Dor espontânea 10 7 7 5 5 2 2 0
Dor ao movimento 10 7 7 7 5 3 3 1
Dor ao esforço intenso 10 10 8 7 7 5 4 3

Em se tratando da Acupuntura, fica evidente que os estudos científicos carecem de metodologia tanto no diagnóstico quanto na conduta terapêutica para que haja melhor avaliação de sua eficácia. Contudo, neste caso houve um real e excelente ganho ao paciente, que teve suas dores reduzidas. 

AUTORA: Carla Ceppo

Deixe seu Recado