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Terça-feira, 07 de Julho de 2020 - 08:37

Resposta Clínica à Punção de Diferentes Acupontos para Tratamento de Rinite Alérgica: Estudo de Casos

Baseado no TCC das alunas: Aniuska Milan Vieira da Costa e Nadini Oliveira Martins  

INTRODUÇÃO:

A rinite alérgica (RA) é uma inflamação da mucosa nasal decorrente da exposição a agentes alergênicos que desencadeiam resposta inflamatória mediada por imunoglobulina E (IgE) (CAMELO-NUNES; SOLÉ, 2010). A resposta inflamatória resulta em sintomas crônicos ou recorrentes, como rinorreia aquosa, obstrução/prurido nasal, espirros e sintomas oculares, que causam grande transtorno não somente à saúde, mas também ao psicológico dos pacientes devido ao curso prolongado da doença (IBIAIPINA et al., 2008; MI et al., 2018).

Apesar de ser um problema de saúde mundial, os dados de prevalência da doença são subestimados, já que muitos pacientes não buscam atendimento médico por não reconhecerem a rinite como uma doença (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). Muitas vezes, as pessoas confundem a rinite com um resfriado e não procuram assistência médica (MEGID et al., 2006). Os sintomas da RA impactam de forma marcante a qualidade de vida dos pacientes, pois alteram seu desempenho, sua capacidade de aprendizado e a produtividade (CAMELO-NUNES; SOLÉ, 2010). Devido aos sintomas, as pessoas dormem mal, faltam ao trabalho, têm obstrução nasal com espirro e coriza, podendo levar à sinusite e a complicações (GANDRA, 2015). Os pacientes relatam aborrecimento pela fadiga, pelo baixo desempenho e concentração, cefaleia e mal-estar relacionados com a gravidade da doença (CAMELONUNES; SOLÉ, 2010). Os pacientes geralmente utilizam tratamentos de medicina alternativa para ajudar a aliviar os sintomas de rinite alérgica (TAW et al., 2015). A prevalência do uso da acupuntura em pacientes com rinite alérgica é estimada em cerca de 17% a 19% (KROUSE; KROUSE, 1999; SCHÄFER et al., 2002).

Existe uma explicação biológica plausível para o uso da acupuntura no tratamento de alergias. Diversos pequenos estudos sugerem que a acupuntura pode modular os níveis de citocinas e outros mediadores anti-inflamatórios, embora os efeitos dessa modulação não sejam necessariamente anti-inflamatórios nem diminuam previsivelmente a alergia (ZIJLSTRA et al., 2003).  A acupuntura pode estimular a liberação de endorfina β que, juntamente com o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), age no córtex da adrenal para estimular a liberação de cortisol, resultando no possível efeito anti-inflamatório (ROBERTS et al., 2008). Segundo a Medicina Tradicional Chinesa, a rinite alérgica é uma Síndrome de Deficiência devido à uma função deficiente do “Zang Fu” (órgão), fraqueza nas respostas imunológicas e susceptibilidade a fatores exógenos, como frio, vento e umidade (WANG, 2003). Para Maciocia (2004), a RA resulta de invasões repetidas de Vento-frio no canal do Pulmão, que, quando não tratadas adequadamente, resultam no Frio transformando-se em Calor. O Pulmão não consegue cumprir com suas funções de difundir e descender o Qi e se desenvolve uma estagnação de Qi e Xue no nariz, gerando a secreção nasal (MACIOCIA, 2004). A secreção nasal amarela e purulenta é causada pelo Calor que é transportado para cima, em direção ao cérebro, pelo canal da Vesícula Biliar (MACIOCIA, 2004). De acordo com os dados da literatura, não é possível recomendar a acupuntura para o tratamento da rinite alérgica devido a heterogeneidade nos resultados e falta de padronização na realização dos estudos (LEE et al., 2009; ROBERTS et al., 2008). No entanto, analisando os resultados das pesquisas isoladamente, diversos estudos provaram a efetividade da acupuntura para o tratamento da rinite alérgica e outras alergias respiratórias (CHOI et al., 2013; MI et al., 2018; SUN et al., 2016; ZIJLSTRA et al., 2003). No tratamento da sinusite aguda, a acupuntura resultou em melhora em crianças com sinusite frontal crônica e recorrente (POTHMAN; YEH, 1982). Em um pequeno estudo cruzado e cego, a acupuntura (três vezes por semana durante quatro semanas) melhorou os escores subjetivos dos sintomas de rinite alérgica sazonal, embora não tenha sido observada redução no uso de medicação dos pacientes (XUE; ENGLISH, 2002). Já em um estudo multicêntrico, randomizado, controlado mostrou que a acupuntura ativa teve um efeito signi?cativamente maior sobre os sintomas da rinite alérgica quando comparado com a acupuntura simulada ou nenhum tratamento ativo, com redução significativa dos sintomas da rinite alérgica (CHOI et al., 2013). 

Em vista disso, o objetivo deste trabalho é analisar os diversos protocolos para tratamento de rinite alérgica utilizados em estudos clínicos randomizados e verificar a eficácia dos acupontos mais frequentemente utilizados para o tratamento de pacientes com rinite alérgica.

MATERIAIS E MÉTODOS

 - FONTE DE DADOS: Diante da necessidade de definir um protocolo para ser utilizado como base para o tratamento da rinite alérgica, foi feita uma pesquisa bibliográfica de estudos clínicos que utilizaram acupontos para o tratamento de rinite alérgica. A busca por artigos científicos de periódicos, dissertações e sites foi realizada em bancos de dados virtuais, como SciELO e Pubmed. As palavras-chaves utilizadas foram: acupuntura, rinite alérgica, tratamento, estudo clínico, acupunture, allergic rhinitis, treatment, clinical trial. Foram incluídos nas nossas análises artigos completos publicados em periódicos de livre acesso, nos idiomas português e inglês. Nesta análise, foram incluídos estudos clínicos randomizados ou não-randomizados que abordaram a eficácia da acupuntura no tratamento da rinite alérgica, cujos protocolos/pontos utilizados nos tratamentos tenham sido claramente definidos e que tenham mostrado a igualdade ou superioridade da eficácia do tratamento da acupuntura versus o comparador. Além disso, os estudos clínicos deveriam testar a técnica de acupuntura contra um outro grupo, como placebo (sem intervenção) ou acupuntura simulada (com ou sem penetração da agulha nos acupontos ou em não-acupontos), ou outro tratamento comparador (medicamento).

- DEFINIÇÃO DO PROTOCOLO:  As referências bibliográficas selecionadas com base nos critérios estabelecidos foram analisadas com relação aos acupontos utilizados, duração do tratamento, tipo de procedimento e resultado observado. Após análise crítica dos protocolos utilizados na literatura, foram selecionados os acupontos mais utilizados nos estudos clínicos e foi determinada a duração do tratamento para aplicação nos pacientes do estudo.  Devido à grande variedade de protocolos utilizados na literatura, foi definido que os pacientes seriam tratados com pontos sistêmicos fixos e que, adicionalmente, receberiam auriculoterapia. O tratamento sistêmico foi padronizado para seguir a metolodogia utilizada em estudos clínicos randomizados, nos quais são definidos acupontos fixos para o tratamento de todos os pacientes independente da Síndrome Energética. A auriculoterapia foi feita para individualizar o tratamento de acordo com as Síndromes Energéticas apresentadas por cada paciente e, desta forma, estar em consonância com a perspectiva holística da Medicina Tradicional Chinesa. Desta forma, de acordo com o levantamento bibliográfico e a análise das funções energéticas dos acupontos, os pontos selecionados para tratamento sistêmico de todos os pacientes foram: IG20, Yintang, VB20, E36, P7, B12.

 - TRATAMENTO: Os pacientes selecionados para o estudo foram submetidos a sessões de acupuntura com aplicação de agulha em pontos pré-determinados com base no levantamento bibliográfico e na função energética dos pontos. Concomitantemente, os pacientes foram submetidos à sessões de auriculoterapia com base no Diagnóstico Energético individual.  Os pacientes foram tratados para Rinite Alérgica em sessões de acupuntura 1 vez na semana por um período de 8 semanas. Dois acupunturistas com menos de 2 anos de experiência clínica foram responsáveis pelo tratamento.   Os pontos utlizados foram IG20, VB20, E36, P7 e B12 (utilizados bilateralmente) e Yintag.  A aplicação da acupuntura utilizou agulhas estéreis de 0,25 mm de diâmetro (Dongbang Disposable Acupuncture Needles), de 30 e 15 mm de comprimento. Após higienização com algodão embebido em álcool etílico 70%, as agulhas foram inseridas em harmonização, tonificação (à favor fluxo do canal de energia) ou sedação (contra o fluxo do canal de energia) e na profundidade de acordo com a especificada na literatura para cada acuponto (FOCKS; MARZ, 2018). As agulhas foram mantidas nos acupontos por 20 min sem manipulação.  Ao final de cada sessão, os pacientes foram tratados com auriculoterapia. Os pontos estabelecidos foram escolhidos com base no diagnóstico energético de cada paciente segundo a MTC (MACIOCIA, 2004). Para a colocação dos cristais, após a devida localização dos pontos reativos, foi feita a higienização do pavilhão auricular com algodão e álcool etílico 70% e aplicação dos cristais afixados com micropore. Os pacientes foram orientados a estimular os cristais 3 vezes ao dia e retirá-los após 5 dias ou 2 dias antes da próxima sessão. 

- PACIENTES:  Foram incluídos no estudo 3 pacientes, sendo 2 adultos e 1 criança residentes na cidade de Sorocaba com histórico de pelo menos 2 anos de sintomas típicos de rinite alérgica e com diagnóstico confirmado por médico especialista. O diagnóstico de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa foi feito para tratamento adicional dos indivíduos com auriculoterapia baseado na Síndrome Energética. 

- AVALIAÇÃO DOS SINTOMAS: A evolução dos sintomas dos pacientes foi avaliada por um questionário de uso diário. Na primeira sessão, foi feito o interrogatório dos pacientes e foi solicitado que eles completassem diariamente uma auto-avaliação sobre os sintomas relacionados à RA. O questionário foi elaborado com base em estudos anteriores que avaliaram os sintomas mais comumente relacionados à RA (BRINKHAUS et al., 2013; MI et al., 2018; XUE et al., 2015). Quatro sintomas nasais (espirros, rinorreia, congestão nasal e  coceira nasal) e 5 sintomas não-nasais (coceira ocular, olhos vermelhos, coceira nos ouvidos, coceira no palato e coceira em outra parte do corpo) foram avaliados usando uma escala de 4 pontos baseada no protocolo descrito por Xue et al., 2015 (0, sem sintomas; 1, sintomas moderados, ou seja, quando os sintomas estão presentes mas não incomodam o paciente; 2, sintomas incômodos, mas não interferem nas atividades diárias dos pacientes; 3, sintomas graves, que interferem nas atividades diárias ou atrapalham o sono).  Foi permitido o uso de medicamentos ocidentais para alivio dos sintomas durante o estudo. Foi solicitado que os pacientes registrassem o número de vezes que utilizaram diariamente medicamentos nasais ou medicamentos orais.

 - ANÁLISE ESTATÍSTICA Para a análise do efeito do tratamento, os dados foram calculados como média e desvio padrão dos sintomas registrados em 7 dias. O resultado basal corresponde aos primeiros 7 dias antes da primeira sessão de acupuntura. O resultado final corresponde à média dos dias de tratamento após a primeira sessão de acupuntura. Os gráficos e tabelas foram feitos utilizando o software Microsoft Excel 2016.

RESULTADOS:

Efeitos Gerais do Tratamento - Os sintomas mais frequentes nos pacientes antes do início do tratamento foi a congestão nasal, seguido por espirro, corisa aquosa e coceira no nariz. Os sintomas não-nasais ocorreram em menor intensidade, sendo a coceira no céu da boca a mais frequente, seguida por coceira nos olhos e coceira em outras partes e, em menor frequência, coceira nos ouvidos e olhos vermelhos. Desta forma, a análise dos sintomas mostrou que os sintomas nasais foram mais frequentes nos pacientes do que os sintomas não-nasais.  A evolução dos pacientes ao longo do tratamento mostrou uma redução significativa de todos os sintomas. Com relação aos sintomas nasais, foi observada uma redução 56,16% na média de coceira no nariz e de 52,53% da média de espirros nos pacientes ao final do tratamento em comparação com as médias basais registradas no início do tratamento.    Apesar de terem sido menos frequentes, a redução dos sintomas não-nasais como coceira nos olhos, olhos vermelhos e coceira em outras partes ao final do tratamento ficou acima dos 80%. 

Sobre o uso de medicamentos nasais, de maneira geral, foi observada uma redução da média tanto do uso de medicamentos nasais quanto orais comparando o início (basal) e o final do tratamento. Foi observada uma redução de 26% no uso de medicamentos nasais e uma redução de 67% do uso de medicamentos orais. 

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

 Este estudo avaliou a influência dos principais acupontos utilizados em estudos clínicos randomizados em associação com auriculoterapia na melhora dos sintomas de rinite alérgica. Os resultados mostraram que a utilização dos acupontos pré-determinados com base no levantamento bibliográfico e na função energética dos pontos em associação com auriculoterapia para individualizar o tratamento de acordo com as Síndromes Energéticas foi eficaz em reduzir os principais sintomas nasais e não-nasais associados à rinite alérgica, bem como reduzir o uso de medicamentos nasais e orais. Ao nosso conhecimento, não foram reportados estudos clínicos randomizados que utilizaram concomitantemente acupontos pré-determinados e auriculoterapia individualizada para o tratamento de pacientes com rinite alérgica. Foram encontrados na literatura tanto estudos clínicos randomizados que agruparam os pacientes de acordo com as principais Síndromes Energéticas e realizaram o tratamento em acupontos selecionados de acordo com essas Síndromes (BRINKHAUS et al., 2004, 2013, XUE et al., 2007, 2015; XUE; ENGLISH, 2002; YI-DAN; XIAO-QING; MAI-HONG, 2016) bem como estudos que testaram um protocolo padronizado de acupontos em todos os pacientes sem considerar as suas Síndrome Energéticas individuais (CHOI et al., 2013; MAGNUSSON et al., 2004; MCDONALD et al., 2016; MEGID et al., 2006; MI et al., 2018). Embora a pesquisa científica consiga comprovar desta forma a eficácia de pontos, o uso de protocolos padronizados parece não representar a acupuntura tal qual tem sido praticada há milênios (KUREBAYASHI; SILVA, 2015). Além disso, o tratamento da rinite alérgica deve ser individualizado com base na segurança, eficácia, preferência do paciente, custo e comorbidades (PRENNER; SCHENKEL, 2006). Sendo assim, optamos por utilizar um protocolo padronizado de acupontos e individualizar o tratamento com auriculoterapia devido ao número restrito de pacientes neste estudo e para estar em consonância com a perspectiva holística da Medicina Tradicional Chinesa. De acordo com Maciocia (2004), o método de identificação da desarmonia básica que está por trás de todas as manifestações clínicas é a identificação de padrões ou Síndromes. A identificação das Síndromes é a essência do diagnóstico e da patologia da medicina chinesa, pois consiste em observar o quadro formado pelas manifestações clínicas do paciente e diferenciar o padrão subjacente da desarmonia (VAL, 2011). Segundo a Medicina Chinesa, as doenças são causadas pelo desequilíbrio entre o Yin e o Yang (QIU, 1993). A RA se enquadra na categoria de Biqiu de acordo com a teoria da MTC (CHENG et al., 2018). A etiologia da doença é baseada na deficiência de um Qi saudável que permite que os males externos se aproveitem de um ponto fraco (CHENG et al., 2018). Em termos de diferenciação das Síndromes,  a RA pode ocorrer simultanea ou isoladamente pela deficiência nas funções do Pulmão, Baço/Pâncreas ou Rins  com/sem invasão de Frio ou Calor patogênicos (CHENG et al., 2018; XUE; ENGLISH, 2002). O tratamento da RA foi proposto para tonificar os Rins, beneficiar os Pulmões e fortalecer o BP simultaneamente, de forma a englobar todas as Síndromes Energéticas envolvidas no desenvolviemento da RA. O Qi do Pulmão governa o órgão e sua abertura no nariz (MACIOCIA, 2004). Com o Qi do Pulmão deficiente, ocorre falha na produção de energia de defesa (Wei Qi), o Pulmão fica mais suceptível à sofrer invasão de Vento-Frio e perde a sua função de dispersar o Qi e descender a água, resultando na estagnação de fluidos corporais que caracterizam a rinorreia e os  principais sintomas da RA (CHENG et al., 2018; XUE; ENGLISH, 2002). A invasão de Vento-frio no Pulmão tem como característica causar coriza de secreção clara, espirros, prurido e congestão nasal (TSAI, 2013). Além disso, de acordo com o pensamento tradicional chinês, há uma conexão entre os pulmões e o intestino grosso, em relação à sua função excretora (POTHMAN; YEH, 1982). Os canais de energia do Pulmão e do Intestino Grosso são canais de energia acoplados interno/externo da mão da primeira circulação (FOCKS; MARZ, 2018). Tendo em vista os sinais e sintomas da RA, foram selecionados para o estudo acupontos que foram mais frequentemente utilizados na literatura e que possuem ação energética compatível com a proposta de tonificar os principais Zang Fu acompetidos em pacientes com RA. Desta forma, os pontos IG20, Yintang e VB20 são pontos locais que possuem ação de dispersar o Qi, expelir Frio e Calor patogênicos e desbloquear o nariz e são importantes para Síndrome de deficiência de Qi do Pulmão (LI et al., 2016; XUE; ENGLISH, 2002).  Deficiência de Yang do Rim e e o acometimento do Pulmão por Vento-Frio podem levar à deficiência de Qi no Pulmão, o que deixa o organismo mais vulnerável a males externos e causa coceira nasal e espirros (CHENG et al., 2018). O Rim não consegue manter Qi e o Qi descendente causa espirros frequentes (CHENG et al., 2018). O enfraquecimento dos Rins e a falha na transformação do Qi fazem com que os fluidos corporais subam para o nariz, o que causa rinorreia constante (CHENG et al., 2018). Os sintomas são: prurido nasal, espirros, corrimento nasal aquoso, obstrução nasal, diminuição do olfato, tez pálida, frieza do corpo e nos membros, calafrios, dor e fraqueza da cintura e joelho, cansaço, tontura, urina clara (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). A língua tem coloração pálida com saburra branca e pulso profundo e fraco (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). O princípio do tratamento deve ser tonificar os Pulmões e os Rins (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). O fortalecimento dos Rins ajuda na inspiração. O canal da Bexiga é par acoplado do meridiano do Rim. O Ponto B12 foi utilizado para regulação e distribuição do Qi do Pulmão e fortalecimento da Wei Qi de defesa. Foi utilizado o ponto P7 para liberar a superfície, expelir o Vento patogênico e diminuir a energia Qi do Pulmão, além de abrir e regular o Vaso Concepção fortelecendo a Wei Qi.  O Baço/Pâncreas é responsável pela transformação do Qi (MACIOCIA, 2004). O BP saudável é cheio de Qi e sangue e defende a superfície do corpo contra a invasão de fatores patológicos externos (CHENG et al., 2018). O BP deficiente não transforma o Qi ou o sangue, o que leva à deficiência de Qi no Pulmão e desnutrição do nariz (CHENG et al., 2018). Portanto, a deficiência de Qi do baço também afeta o transporte e a regulação da água, e a retenção de líquidos invade os orifícios nasais, causando edema da mucosa nasal e rinorréia constante (MI et al., 2018). Os sintomas da deficiência do Qi do BP são: crises crônicas, espirros, secreção nasal branca e aquosa, obstrução nasal, sensação de cabeça pesada, cansaço, pouco apetite, tez amarelada, diarreia, língua pálida e flácida com saburra branca e fina e pulso fraco (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). E36 é o ponto mar do meridiano Yangming do canal do Estômago, usado para fortalecer o BP e o Qi (LI et al., 2016). Ao mesmo tempo, a sua estimulação pode dar mais força para a Terra gerar Metal e regular o frio no estágio de remissão da rinite alérgica (LI et al., 2016).  A invasão do Pulmão por Calor faz com que o Pulmão não difunda e descenda o Qi, o que causa estagnação de fluidos corporais, levando a rinorreia transbordante (CHENG et al., 2018). Em decorrência disso, o calor invade o nariz e causa coceira e espirros constantes.  Outros sintomas são: prurido no nariz e na garganta, espirros, corrimento nasal com secreção amarela e espessa, obstrução nasal, aversão ao calor, boca seca, irritação na garganta  (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). A língua tem coloração vermelha com revestimento amarelo e o pulso  é rápido (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). O tratamento deve promover a dispersão do Calor dos Pulmões, como pela ação dos pontos VG-20, IG20, removendo a obstrução nasal (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010).  O presente estudo procurou aproximar a pesquisa científica da prática clínica, já que após a aplicação das agulhas, muitos acupunturistas geralmente fazem o uso da auriculoterapia como forma de manter o tratamento no paciente por mais alguns dias até a próxima sessão. O pavilhão auricular tem um perfil estrutural particular, com uma rede vascular muito rica e feixes neurovasculares específicos (KUREBAYASHI; SILVA, 2015). Além desta explicação ocidental, a MTC explica a relação entre o pavilhão auricular como um micro sistema e sua função no tratamento de vários desequilíbrios (FONSECA, 2018). O pavilhão auricular tem relação com os canais de energia, os meridianos yang (intestino grosso, intestino delgado, vesícula biliar, triplo aquecedor, estômago e bexiga) passam ao redor da orelha, enquanto que os meridianos yin (pulmão, coração, pericárdio, fígado, baço/pâncreas e rins) estão ligados a orelha por meio de ramificações (FONSECA, 2018). O uso da auriculoterapia teve a intenção de individualizar o tratamento dos pacientes, pois foi possível acessar os 12 meridianos principais tratando os mais diversos padrões de desarmonia de cada paciente. O tratamento pela acupuntura é um processo, no qual o restabelecimento da saúde ocorre de modo gradual e está associado tanto à condições externas (ambientais, climáticas, sociais e históricas) como internas (alimentação, emoções, espiritualidade) com as quais o indivíduo está envolvido (SILVA, 2010). A avaliação dos sintomas da RA pelos pacientes durante este estudo foi feita pelo uso de um questionário de uso diário. Os tratamentos foram realizados durante os meses de Julho e Agosto, período em que normalmente se observa um aumento da incidência de casos de RA, bem como o agravamento dos sintomas devido ao clima frio e seco. A análise dos resultados mostrou melhora de todos os sintomas nasais e não-nasais nos pacientes. Em especial, é importante ressaltar que foi possível observar os efeitos de fatores externos em dois pacientes, os quais passaram por mudanças ambientais e climáticas durante o período de tratamento e tiveram um leve aumento dos sintomas. De forma similar, no estudo de Brinkhaus et al. (2013), a acupuntura melhorou a qualidade de vida e reduziu o uso de anti-histamínicos após 8 semanas de tratamento em comparação com acupuntura simulada. Em outro estudo, cujo tratamento foi feito em acupontos selecionados com base no diagnóstico tradicional da MTC, a acupuntura foi eficaz no alívio de ambos os sintomas nasais e não nasais da RA sazonal (RAS), mostrando o valor do tratamento com acupuntura para RAS com base nos procedimentos tradicionais de diagnóstico da MTC (XUE; ENGLISH, 2002).  Estudos mostraram que acupuntura trata a RA com eficácia de 97% dos casos, tendo uma ação superior e mais duradoura que a medicação convencional (PICANÇO; CAVALCANTE, 2010). Neste estudo, os pacientes relataram redução do uso de medicamentos nasais e orais ao longo do tratamento, embora a redução não tenha sido estatisticamente significativa pelo número pequeno de pacientes analisados. Em contrapartida, Megid et al. (2006) comparou o efeito do tratamento da rinite alérgica utilizando acupuntura e corticóide tópico nasal na avaliação dos sintomas da RA e mostrou que houve melhora significante nos dois grupos e que não houve diferenças estatísticas significantes na comparação dos resultados, concluindo que a acupuntura é um método de tratamento tão eficaz quanto o corticóide nasal, com a vantagem do tratamento por acupuntura não causar efeito colateral.  A medicina alternativa é amplamente utilizada para tratar alergias na população (SCHÄFER et al., 2002). Desta forma, o presente estudo conseguiu mostrar que houve melhora dos sintomas de rinite alérgica nos pacientes e redução do uso de medicamentos nasais e orais em 8 semanas de tratamento, embora a redução do uso de medicamentos não tenha sido tão evidente quando a melhora dos sintomas. Não se sabe se a redução do uso de medicamentos poderia ter sido maior caso o tratamento tivesse sido feito por mais tempo e se os pacientes não tivessem passado por mudanças no ambiente durante o período de estudo. Sugere-se, assim, que estudos sejam realizados em um maior número de pacientes e por um período de tempo maior para que se possam avaliar os efeitos da acupuntura nos acupontos pré-definidos juntamente com auriculoterapia individualizada. 

Autora do artigo: Profa. Ma. Luciana Mendes Vinagre

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