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Terça-feira, 06 de Junho de 2017 - 08:48 - Atualizado em 06/06/2017 09:04

Relato de Caso: Uso da Acupuntura na Recuperação da Paralisia Facial em uma Unidade Básica de Saúde

ANA PAULA BATISTA RAMOS

Artigo elaborado baseado em partes do Trabalho de Conclusão de Curso. Autora do artigo: Profa. Larissa A. Bachir Polloni - CETN

A paralisia facial periférica (PFP) é uma morbidade neuromotora que envolve o nervo facial, de forma temporária ou definitiva. A sua incidência é maior aos 40 anos de idade, porém pode afetar pessoas de qualquer faixa etária, variando da terceira à oitava década de vida, sendo rara antes dos 10 anos de idade. A prevalência da paralisia de Bell é maior no gênero feminino e alguns autores acreditam que a maior frequência entre as mulheres se deva a gestação ser um fator de risco da paralisia e pelo fato de possuírem maior expectativa de vida, quando comparado aos homens. Vale ainda considerar, que além da gestação, diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica também são considerados fatores de risco. (PARAGUASSÚ, GM; SOUSA, JAC; FERRAZ, EG, 2011).

Mesmo sendo uma patologia antiga, e possuindo inúmeras etiologias, ainda é pouco conhecida. Quando ocorre, gera problemas muito sérios devido a mutilação dos movimentos expressivos da face, causando inclusive sérios problemas psicológicos. Ocorre também o comprometimento das funções fisiológicas, tais como, o lacrimejamento, o reflexo do músculo do estribo, a sensibilidade gustativa dos dois terços anteriores da língua, a salivação, os movimentos voluntários e a modificação do tônus da boca, gerando problemas no processo alimentar. (CAROPRESO, 2016)

A etiologia da paralisia facial periférica (PFP) é variável e inclui causas neoplásicas e metabólicas, afecções inflamatórias da orelha media, herpes zoster, mas as mais comuns são de ordem idiopática ou de Bell, seguida da traumática.

Desde que descreveu pela primeira vez em 1830, tem-se falado em diversas teorias para explicar a etiopatogenia da PFP de Bell; as mais recentes incluem a hipótese da isquemia vascular, imunológica e de compressão e nos últimos anos tem surgido a hipótese virótica (por herpes simples), com diversas investigações que a apoiam. (ROSA et al. , 2010). A Paralisia facial idiopática (Bell) é a causa mais comum, com incidência de 20 casos para cada 100.000 habitantes (EUA), representando 55% a 80% dos casos de PFP. Acomete todas as faixas etárias, sendo mais frequente em mulheres, terceiro trimestre de gestação, homens acima de 40 anos e em indivíduos diabéticos. (DIB; KOSUGI; ANTUNES, 2004).

A fisiopatologia da paralisia de Bell ainda não está totalmente esclarecida, entretanto, tem sido demonstrada associação com infecçãoo pelo citomegalovírus, envolvimento autoimune e congênito também tem sido considerado, entretando a maioria dos casos ainda é considerado como idiopático. (PARAGUASSÚ, GM; SOUSA, JAC; FERRAZ, EG, 2011).

NA PFP ocorre paralisia parcial ou completa dos músculos da hemiface afetada, estando a musculatura desviada para o lado contralateral; pode ocorrer concomitantemente, de acordo com a localização e grau da lesão, hipersensibilidade auditiva, incapacidade de fechar os olhos, redução do reflexo de piscar e redução do paladar, assim como distúrbios da salivação e do lacrimejamento, dormência ao redor da orelha (BARROS, HC; BARROS, ALS; NASCIMENTO, MPR; 2012).

O nervo facial é o que mais sofre paralisia no corpo humano, devido ao seu longo percurso que passa através de um canal estreito, aqueduto de Falópio, e apresenta varias mudanças de direção, desde o tronco cerebral até a periferia. (ROMAO; CABRAL, MAGNI, 2015).

O grau da recuperação do nervo facial depende da idade, do tipo da lesão, da etiologia, da nutrição do nervo, do comprometimento neuromuscular e da terapêutica instituída. Essa recuperação pode levar desde algumas semanas até quatro anos. (BARROS, 2016; GARANHANI et al. 2007).

A MTC atribui a ocorrência da paralisia facial à exposição ao vento frio que invade os meridianos que atravessam o rosto e interrompem o fluxo de Qi e sangue, impedindo os vasos e os músculos de receber o suprimento necessário. O tratamento é direcionado para dispersar o Qi através dos meridianos da face.

Relato de caso:

Paciente K.R.M.S,  sexo feminino, 27 anos, casada, 3 filhos, repositora, desempregada. Teve paralisia facial no oitavo mês de gestação, sendo diagnosticada durante a consulta de pre-natal realizada na Unidade Básica de Saúde (UBS) em março de 2015. Teve parto normal sem intercorrências em 26/04/15.

Em 02/07/15, após 4 meses da PFP, a paciente foi avaliada pela autora deste artigo, sendo oferecido o tratamento de Acupuntura.

 A paciente encontrava-se em período de puerpério remote, nutriz, em amenorréia, apresentava desvio de rima à esquerda, ptose palpebral à direita com lacrimejamento significativo, dificuldade de mastigação e deglutição, sialorréia e crises de choro constante; bebe estava com 2 meses e 6 dias.

Queixa secundária: algia abdominal frequente, de intensidade leve a moderada, sem horário especifico com piora à palpação, cefaleia em região occipital constante desde 2006. Refere pontada no tórax e perda de sono fácil quando fica nervosa.

Medicação: Nega medicações de uso contínuo.

Diagnostico na Medicina Tradicional Chinesa:

-          Invasão de vento do Fígado, ascensão do Yang do Fígado, estagnação do Qi do Fígado, qi do Baço deficiente, distúrbio do shen.

Proposta terapêutica: Acalmar o shen, mover o qi estagnado, tonificar Yin do fígado, mover qi do fígado, mover vento do fígado.

Tratamento inicial:  VC24, VG16, VG26, F3, Yin Tang e Auriculoterapia Chinesa (SNV, Rim, Shen Men, Fígado, Baço, Coração, Pulmão, Ponto da cefaleia, subcortex).

As sessões eram realizadas semanalmente, repetindo os pontos de acupuntura e auriculoterapia conforme a resposta terapêutica da paciente. Inicialmente foi preconizado 10 sessões para o tratamento da paralisia facial com a acupuntura, sendo expandido conforme a necessidade e resposta terapêutica.

Foi aplicado questionário com dados sobre a anamnese da paciente para o levantamento do diagnostico na medicina chinesa e determinação dos acupontos a serem utilizados no tratamento. O registro das informações, assim como toda sua evolução clínica foram registrados no prontuário de saúde da paciente na UBS da qual a mesma é usuária, sendo o mesmo local do tratamento.

Foi assinado pela paciente o termo de consentimento livre esclarecido.

RESULTADOS:

-          Em 17/05/15: após 2 sessões, apresentou melhora do desvio de rima, os olhos não apresentavam mais lacrimejamento, não apresentava mais sialorreia. Refere estar dormindo melhor e mais calma.

-          Em 05/08/15: melhora da paralisia facial – grande melhora da ptose e do desvio de rima, não tem apresentado crises de choro fácil.

-          Em 13/08/15: continua melhora, porem continua com cefaleia – acrescentado ponto VG20.

-          27/08/15: nas duas últimas sessões melhorou alimentação, não precisando de auxilio de canudo, acrescentado ponto Yin Tang

-          17/09/15: mantendo os pontos – mantendo boa evolução.

-          01/10/15: acrescentado ponto VC17, devido a ansiedade.

-          06/11/15: olho direito volta a lacrimejar, acrescentado pontos : F3, IG4, VC7, VC24, VG16, VG20, VG26, BP6, E2, E3, E4 e CS5.

-          12/11/15: lacrimejamento apresentou melhora.

-          27/11/15: apresenta melhora da PFP, melhora da ptose, não necessita usar pomada oftálmica, palpebral com movimentos preservados, não apresenta sialorréia, mastigação e deglutição preservada, discreto desvio de rima à esquerda, melhora do estado emocional. Paciente de alta do tratamento.

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