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Terça-feira, 03 de Março de 2020 - 11:24

O Papel da Acupuntura na Reabilitação Pós Acidente Vascular Cerebral: Estudo de Caso

Artigo baseado no TCC dos alunos: Aline Vanessa Pinto de Oliveira Ramalho e Leonardo Henrique Benatti de Oliveira

INTRODUÇÃO:

No Brasil, cerca de 40% das mortes se relacionam com problemas cardiovasculares, predominando o acidente vascular encefálico (AVE), se tratando de uma interrupção do suprimento de sangue para o cérebro seja por um rompimento do vaso ou seu bloqueio. Pode ser definido também como um mal neurológico súbito devido a uma lesão vascular, incluindo distúrbios de coagulação e hemodinâmicos mesmo que não exista alterações visíveis nas artérias ou veias.

A grande maioria dos acidentes vasculares acontecem por oclusão, seja por ateromas nas artérias ou êmbolos secundários, que privam o cérebro de oxigênio e glicose levando a morte dos tecidos, caracterizado como isquêmico. No acidente vascular hemorrágico acontece um sangramento anormal para dentro de áreas do cérebro seja por trauma ou aneurisma aumentando as pressões intracranianas, lesando os tecidos cerebrais e restringindo o fluxo sanguíneo.

A incapacidade funcional é uma das sequelas mais presentes nesses pacientes, que se aliado a diminuição cognitiva é um forte indicativo de dificuldade na recuperação em longo prazo. O processo de reabilitação deve estimular a reorganização cerebral com estímulos terapêuticos e orientação familiar, facilitando o cuidado com esses pacientes e incluindo a família ou cuidador no processo de reabilitação.

Os conhecimentos da medicina tradicional chinesa combinados com os conhecimentos ocidentais podem ser interessantes para a reabilitação das sequelas deixadas pelo AVE, complementando o que já é realizado como tratamento, tendo como grande beneficiado o paciente.

No ano de 2003 a organização mundial de saúde, por meio de um relatório incluiu diversas patologias onde a eficácia da acupuntura se observou, dentre elas, estava o AVE

Na medicina tradicional chinesa o acidente vascular encefálico é conhecido por zhong feng, que se traduz como lesão pelo vento. Essa denominação se da pelos sintomas, que se instalam subitamente, características variáveis e evolução imprevisível, semelhante ao que o vento causa na natureza. Não podemos falar no vento na medicina chinesa sem nos remeter ao fígado, sendo o vento, o clima relacionado a esse órgão que tem por função energética promover o livre fluxo do QI (energia), armazenar XUE (sangue) nutrindo tendões e olhos, controla o fluxo menstrual, atua na digestão, tendo ainda relação com a raiva, o verde, o azedo e o grito.

O vento é uma energia que pode haver em qualquer estação, podendo ser externo ou desenvolvido internamente pelo fígado, provocando no organismo agressões. Sobre o vento: pode estar no começo de diversas doenças, pode se associar ao frio, umidade, secura e calor dando origem respectivamente ao vento frio, vento umidade, vento calor e vento secura. Sua natureza é YANG e gera movimento, eleva-se para o alto e exterior, por isso pode prejudicar a cabeça e partes altas do nosso corpo, observa-se também suor e temor ao vento.

Uma doença causada pelo vento tem por característica se deslocar, se uma dor por exemplo, ela se desloca, não se fixa num local do corpo, é irregular e seu início é súbito, podendo se transformar sempre. Os sintomas mais frequentes são nos olhos, ofuscados, tonturas, tremores, espasmos e até uma nuca rígida e dolorosa são sintomas do vento. Vale aqui uma associação destas informações com o caso em estudo, onde veremos em sua avaliação que alguns sintomas do vento ainda permanecem mesmo após o AVE.

MATERIAIS E MÉTODOS:

O Sr. J.L.F. de 56 anos procurou a fisioterapia no dia 2 de março de 2016 para tratamento das sequelas deixadas por um AVE ocorrido em janeiro do mesmo ano, apresentando hemiplegia á direita. A fisioterapia motora foi iniciada com a frequência de três vezes por semana, com o mesmo retomando marcha após um mês de tratamento.

Durante o processo de reabilitação motora, o mesmo referia muitas tonturas e episódios de irritabilidade intensa, necessitando de medicamentos para controle de tais queixas. Foi proposto  a acupuntura como técnica alternativa, duas vezes na semana, durante cinco semanas, intercalando com a reabilitação motora.

Na avaliação seguindo os princípios da medicina tradicional chinesa sua queixa principal eram as tonturas e a persistente irritabilidade, também se queixou de dores de cabeça na região das têmporas, sente sempre muito calor e dificuldade de evacuação, por conta de fezes endurecidas, sintomas que já o acompanhavam antes do AVE. Apresentou a língua pálida nas laterais e vermelha na ponta, sem saburra e desviada lateralmente. O pulso se apresentou vazio (fraco) na posição que corresponde ao fígado.

Com base na avaliação da medicina tradicional chinesa foi chegado a conclusão de que se tratava de uma ascendência da energia YANG do fígado por deficiência de sua energia YIN, o que gera calor e sintomas no alto do corpo. Para o tratamento deste problema energético com acupuntura foram escolhidos os seguintes pontos: F3, VB34, VG20, BP6, F8, C3 e IG4.

RESULTADOS

Antes de fazer a terapia alternando a fisioterapia motora com a acupuntura, o paciente apresentava boa recuperação das funções motoras, readquirindo os movimentos e a força, frutos de um conjunto de fatores: a correta indicação dos exercícios, assiduidade e grande vontade de se recuperar. Apesar de todo sucesso motor do tratamento a irritabilidade constante e as tonturas persistiam, provocando medo de quedas e quando se irritava demais, a espasticidade no lado hemiplégico se acentuava.

Após o fim das sessões de acupuntura, o paciente não apresentava mais episódios de tontura e as crises de irritabilidade não faziam mais parte da sua rotina. O mesmo passou a comparecer as suas sessões de fisioterapia motora fazendo o percurso a pé, retomou seus passeios e atividades diárias, coisas que relatava muito medo em realizar, pelos problemas mencionados.

Apresentou também significativa melhora nos treinamentos de propriocepção, em solo, na cama elástica e nos circuitos com obstáculos. Relata facilidade para mover o membro inferior afetado e aumento da sensibilidade no mesmo durante a execução dos exercícios.

De maneira generalizada o AVE pode ser evitado se controlado os fatores de risco e melhorando a qualidade de vida, lembrando sempre que uma boa dieta e atividades físicas são a essência da nossa saúde.

Para a medicina chinesa o “golpe de vento” causador da hemiplegia e que interrompe o fluxo de QI e XUE (sangue) na parte superior do corpo, tem sua etiologia dividida em quatro grupos, segundo MACIOCIA (1996):

1.    Trabalho em excesso, estresse e atividade sexual abundantes, causando a deficiência de energia YIN do rim e do fígado, gerando ascensão da energia Yang do fígado, podendo gerar vento do fígado, principalmente nos mais velhos;

2.    Alimentação ruim associada a grandes esforços físicos, com grandes quantidades de doces, laticínios e frituras enfraquecem o QI do baço e gera umidade, predispondo a obesidade;

3.    Muita atividade sexual e pouco tempo de repouso enfraquecem o JING (energia essencial, pré natal), deixando a medula em deficiência, a mesma não nutre o XUE (sangue), podendo gerar quadros de estase do mesmo;

4.    Muito esforço físico e pouco repouso enfraquecendo o baço, os músculos e canais, facilitando a manifestação do vento interno pela deficiência de QI e XUE nos mesmos;

A importância da identificação desses “padrões” nos pacientes se dá no âmbito da prevenção de uma doença que pode gerar prejuízos permanentes aos mesmos. O equilíbrio na alimentação, bons hábitos e nos exercícios físicos poderiam evitar tais padrões de risco e para os que já nele se encontram a acupuntura e outras práticas da medicina tradicional chinesa trabalhando no reequilíbrio energético do individuo podem ser objetos de estudos futuros num grupo maior envolvendo esses padrões. No presente estudo de caso, durante os atendimentos, foi mencionado varias vezes pelo Sr. J.L.F. que os sintomas que então apresentava e que o levou para a acupuntura ja existiam antes mesmo do AVE ocorrer, reforçando a ideia futura de estudos neste sentido, quantificando e qualificando as observações de práticas clínicas.

No ano de 2011 um estudo envolvendo 806 pacientes com ate 30 dias de pós AVE, propôs um modelo para identificar os padrões da medicina chinesa no pós AVE. Para que fosse considerado um padrão válido dois especialistas em medicina chinesa tinham que estar de acordo com os achados. 480 pacientes foram identificados como pertencendo a um padrão, onde 210 pacientes apresentaram fleuma com umidade, 110 com deficiência de QI, 100 com calor do fogo, 51 pacientes com deficiência de YIN e 9 com estase de XUE. Os autores apontaram necessidade de replicar o estudo para que os padrões possam ser validados.

CONCLUSÃO

No presente estudo de um caso isolado observou-se o padrão conhecido na medicina chinesa como vento interno, focando desta forma o tratamento de acupuntura baseado neste aspecto apresentado pelo paciente. Levando em conta as características do vento interno e suas consequências foi obtido resultados satisfatórios alternando dias de acupuntura com fisioterapia motora para as sequelas do AVE.

Faz-se necessário um estudo com mais pacientes para que a ideia de identificar esses padrões pré e ou pós AVE, no âmbito preventivo do primeiro acidente ou de outros que possam suceder o primeiro episodio esteja cada vez mais clara. O grande acupunturista deve pensar primeiramente na prevenção, a nosso ver.

Autora do artigo: Profa. Ma. Luciana Mendes Vinagre

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