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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018 - 10:06 - Atualizado em 16/01/2018 10:29

Classificação da Depressão dentro dos Conceitos da Medicina Chinesa: etiopatogenia e teoria dos 5 elementos

Adriana dos Santos Publio
Jaqueline Murosaki
Magali Rabelo

Artigo elaborado baseado em partes do Trabalho de Conclusão de Curso. Autora do artigo: Profa. Larissa A. Bachir Polloni - CETN

O estudo das doenças psíquicas tem tido muita relevância no meio científico, principalmente o tratamento holístico dessas enfermidades. Dentro delas, a depressão vem ganhando destaque, já que os casos aumentaram significativamente no Ocidente, abrangendo todas as faixas etárias. Esse aumento tem vários motivos, dentre os quais o ritmo de vida acelerado das pessoas e o empobrecimento das relações interpessoais.

Porém, o termo depressão tem sido equivocadamente usado para definir qualquer estado afetivo normal, como a tristeza, que muitas vezes é resposta de situações de perda, derrota, desapontamento, o que não caracteriza o quadro depressivo propriamente dito. Portanto, faz-se necessário uma compreensão deste transtorno psíquico e de suas principais características. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 350 milhões de pessoas que sofrem de depressão no mundo. O quadro depressivo pode ser de curta ou longa duração, único ou recorrente. Na sua forma mais grave, pode levar ao suicídio.

Há relatos de depressão muito antigos, como contado na lenda japonesa de Amaterasu Omi Kami, a deusa do Sol, filha do deus Izanagi e da deusa Izanami (senhora da terra da tristeza). Amaterasu tem dois irmãos: o deus da Lua, Tsuki Yomi No Mikoto, e o deus do trovão Suzano o No Mikoto. Este tinha o habito de chorar e lamentar-se. Não aceitava que a irmã, primogênita, fosse encarregada de cuidar dos arrozais japoneses. Decide vingança e manda seus homens destruírem os campos de arroz da irmã. Quando Amaterasu vê seus campos devastados, se entristece e decide não viver mais entre os homens e os deuses. Isola-se dentro de uma gruta nas montanhas e coloca uma pedra na entrada da caverna. Com seu desparecimento, o mundo escurece. E desaparecem também as almas das pessoas e dos animais. Os deuses tentam chama-la, mas sem respostas. Decidem fazer uma festa e chamam Uzume, deusa da alegria e folia; ela fez uma dança engraçada e lasciva para divertir os deuses e deusas, provocando a curiosidade de Amaterasu, que saiu da caverna para espiar e ficou encantada com a própria beleza refletida num espelho que os deuses e deusas haviam colocado ali – e então saiu da gruta, voltando assim, a luz ao coração dos homens e todo o universo se resplandece.

Os primeiros registros científicos iniciam-se com Hipócrates de Cós (450 a.C. –355 a.C.), que descreveu 4 humores como causa do desequilíbrio humano: sangue, bile negra, bile amarela e fleuma. Estes regulariam as emoções, os afetos e o caráter do indivíduo, sendo que o excesso de bile negra levaria as pessoas à melancolia.

Somente no século XIX surgiu o termo “depressão” com o sentido atual. Emil Kraepelin, psiquiatra alemão, reuniu, em 1899, os quadros de depressão e mania em uma só entidade nosológica, dando-lhe o nome de psicose maníaco-depressiva. Em 1957, o psiquiatra alemão, Karl Leonhard (1904-1988) promoveu a disjunção da doença maníaco-depressiva, propondo que ela se dividisse em bipolar (episódios de mania e depressão) e monopolar (apenas depressão).

De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID 10), num episódio depressivo típico, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da autoestima e da autoconfiança e frequentemente ideias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave.

Depressão no contexto Oriental: Os antigos chineses não tinham conhecimento tecnológico e muito menos estudos bioquímicos e microscópicos, e deram grande importância às emoções como os fatores mais importantes na causa das patologias.

Desta maneira, a depressão não é vista como uma categoria de doença para a MTC, mas sim um desequilíbrio energético, que pode enquadrar-se em um ou mais padrões de desequilíbrio/desarmonia nos Zang Fu, dependendo dos sintomas apresentados pelo indivíduo.

Na China, os pacientes relatam os sintomas somáticos desse desequilíbrio, inexistindo depressão como um sentimento (Maciocia, 2014). Os chineses chamam a depressão de “Yin Yu”, que significa abatimento ou de “Yu Zheng”, que significa padrão de depressão. Esses significados levam ao entendimento desse quadro como uma estagnação, que quase sempre é a causa para o desequilíbrio energético. (Maciocia, 2014). Os sinais e sintomas do quadro depressivo podem estar associados a quadros de deficiência ou estagnação de Qi ou em padrões de desarmonia do YIN/YANG. Principalmente do QI do Fígado, que é o responsável pelo livre fluxo das emoções, como mencionado anteriormente. Isto pode levar a uma constatação de que a função energética do Fígado estará em desarmonia, fazendo com que não seja possível abrigar a Alma Etérea (Hun), lembrando ser esta responsável por sonhos de vida, planos, ideias, projetos, sentido de propósito, relação com os outros, entre outras.

Pensando na Teoria dos Cinco Elementos, a Alma Etérea (Hun), é que dá o movimento para a Mente (Shen), assim; como está em desequilíbrio, o Shen pode ficar inativo ou exercer excesso de controle no Hun, levando ao quadro clínico em questão. JIWEI, HABO (2011), cita pesquisas feitas por Hu Suiyu et al. realizadas em 1977, onde investigaram a apresentação dos sinais e sintomas de pacientes deprimidos, demonstrando a existência de 12 Padrões de Síndromes, que são: estagnação do Qi do Fígado; obstrução do Qi do Fígado e mucosidades; deficiência do Fígado com insuficiência do Baço; insuficiência concomitante do Coração e do Baço; insuficiência do Yin do Fígado e do Rim; estagnação do Qi do Fígado com estase de Sangue; insuficiência do Yang do Baço e do Rim; insuficiência de Qi do Fígado e da Vesícula Biliar; Fogo excessivo no Coração e no Fígado; insuficiência de Yin com hiperatividade do yang; Calor devido à estagnação do Qi do Fígado; umidade estagnada no Aquecedor Médio.

De acordo com PAIVA(2011), a depressão neste contexto pode apresentar-se da seguinte forma, dependendo de onde esteja a deficiência ou estagnação, gerando a não estimulação da Alma Etérea:

- Deficiência de QI e do YANG do Rim: falta de motivação, falta de força de vontade, falta de iniciativa, vontade de ficar encolhido, joelhos frios e fracos, urina clara e abundante, micção noturna e diminuição da libido.

- Deficiência de YIN e QI do Rim: desmoronamento de personalidade, sentiment de desistir da vida, perda total do controle, falta de força de vontade, apático.

- Deficiência ou Estagnação de QI do Rim: pouca energia constitucional ou por uso excessivo. Tem o desejo, porém não consegue atingir seus objetivos.

- Deficiência ou Estagnação de QI do Coração: necessidade de calor humano e de afeto. Tímido, constrangido, apresenta dificuldade na comunicação e de iniciar relacionamentos. Sente-se como se estivesse preso, desconforto na região do tórax, sensação de frio, mãos frias, falta de alegria, solidão, falta de interesse na vida. Tem a sensação de ser amado, mas não ser digno desse amor.

- Estagnação de QI do Coração: frustração nos relacionamentos por dificuldade em expressar cordialidade e sentimentos. Tristeza, aflição, agitação mental, insônia, agitação ao anoitecer, sonhos excessivos, palpitações, dor no tórax em punhalada ou sensação de constrição no tórax, cianose dos lábios e das unhas e mãos frias.

- Deficiência de YANG do Coração: falta de motivação, tendência a se assustar facilmente, palpitações, respiração curta após esforço. Cansaço, Transpiração excessiva.

- Deficiência de YIN do Coração: labilidade emocional, fraqueza e nervosismo, facilmente se cansa e emocionalmente perturbado.

- Deficiência e Estagnação de QI do Fígado: falta de planejamento e decisões insensatas. Incapacidade de habilidades para reverter situações de conflito.

- Deficiência do QI do Fígado/Vesícula Biliar: dúvida sobre si mesmo, incerteza, insegurança, suscetibilidade e hipersensibilidade e um sentido de si muito limitado.

- Estagnação de QI do Fígado: frustração, sente-se bloqueado pelas circunstancias, aversão em ficar parado, zangado e irritável. Mau-humor, irritabilidade, ansiedade, frustração e TPM.

-Fogo no Fígado: raiva reprimida ora raiva expressa; agressividade.

- Deficiência de QI do Baço/Pâncreas – preocupação e questionamentos mentais.

- Estagnação de QI do Baço/Pâncreas: isolamento, comportamento possessivo e dependente, dominadores, invasivos e queixosos.

-Deficiência de QI do Pulmão: recolhimento e falta de participação no presente, dificuldade ou medo de formar vínculos duradouros, vive das lembranças do passado.

- Estagnação do QI do Pulmão: pesar reprimido, apego dos relacionamentos antigos, dificuldade com perdas, irritabilidade branda, acessos de choro, tristeza, sensação de bolo na garganta, dificuldade para engolir, sensação de opressão ou distensão do tórax, ligeira falta de ar.

Para PAIVA (2011), na visão da medicina Chinesa, a depressão pode ser dividida em 05 diferentes tipos, que estão relacionados com a Teoria dos Cinco Elementos:

1 - Depressão ÁGUA: esse tipo de depressão é reflexo de uma desarmonia no elemento água. O "Espírito Guardião "da harmonia no elemento Água é denominado de "Zhi", que mora nos Rins, representa: a raiz do Yin e do Yang, a essência, a iniciativa, o poder de decidir e a confiança.

- Características do paciente depressivo tipo Água:  medo e fobias que podem não ter causa aparente (podem estar associadas a um trauma na infância que o paciente bloqueou na memória e não se lembra). Esse medo fica claro em situações de risco reduzido, onde somente aquele indivíduo hesita em encarar a tal situação.

- Sintomas presentes: apatia; falta de iniciativa- "acho que não vou conseguir"; falta de confiança na sua capacidade de resolver situações (de qualquer natureza); sensação de impotência, inclusive sexual, sem ter nenhum problema estrutural que justifique a causa (indivíduos fortes e bem alimentados que, ainda assim, sentem-se incapazes); podem ser pacientes que enfrentam problemas gênito- urinários.

2 - Depressão TERRA: esse tipo de depressão é um resultante da desarmonia do intelecto. Quando a energia do Baço- Pâncreas é insuficiente ocorre o descontrole do intelecto, destruindo a calma e a claridade dos pensamentos. O espirito guardião do elemento terra (chamado de Yi) sofre e perde a quietude. Reflexão, calma e simpatia compõem a base da matriz emocional do elemento TERRA chamada de Yi.

- Características do paciente depressivo do tipo Terra: os pacientes nesse estado tendem ao desconectar-se da matriz emocional do elemento Terra e podem tornar-se antipáticos, preocupados demais com os problemas alheios e com grande dificuldade de refletir sobre os seus próprios problemas e necessidades. Podem ser indivíduos que se mostram independentes mas que no fundo são extremamente carentes de auto- nutrição e com o espírito pesado. Podem também apresentar dificuldade de concentração matemática e alguma relação forte, podendo ser de afinidade ou não, com o sabor doce.

- Sintomas presentes: pensa demais; confusão; opressão; preocupação excessiva.

3 - Depressão FOGO: esse tipo de depressão envolve problemas afetivos ligados a rejeição e desapontamentos em relacionamentos interpessoais: alegria, amor e razão compõem a base da matriz emocional do coração chamada de Shen.

- Características do paciente depressivo do tipo Fogo: esse tipo de depressão é acompanhado por uma frieza e distância do paciente em relação aos novos relacionamentos, eram pessoas “quentes e sensíveis “que tornaram-se frias e apáticas ou ao contrário, tornaram-se excessivamente agitadas e hipersensíveis. Em casos muito extremos esse tipo de depressão pode gerar comportamentos maníaco-depressivos, maníaco –sexuais e a loucura (perda total da razão, onde o Shen não encontra verdadeira morada).

- Sintomas presentes: falta de alegria de viver, pouco entusiasmo, pouco interesse, falta de inspiração e capacidade de julgamento desequilibrado.

4 - Depressão METAL: esse tipo de depressão geralmente é decorrente de perdas materiais. A tristeza está presente na matriz emocional do elemento Metal. Sentir tristeza ajuda o indivíduo na aceitação, o que o leva na expressão máxima do Pulmão: A Reverência. O Pulmão é também o responsável pela proteção do indivíduo. Daí as

relações entre o Pulmão e a pele (barreira defensiva) e a energia defensiva Wei.QI.

- Características do paciente depressivo do tipo Metal: está ou sente-se de alguma forma desprotegido. A falta de proteção que gera a depressão é relacionada aos aspectos físicos, materiais. A morte de um parente querido, a perda de uma propriedade estimada são exemplos corriqueiros de situações em que o paciente tem problemas em aceiar o inevitável ocorrido e é aí que inicia a desarmonia no elemento metal, a ascensão maléfica da tristeza, geradora da melancolia e resignação.

- Sintomas presentes: resignação, pessimismo e sentimentos de remorso.

5 - Depressão MADEIRA: esse tipo de depressão geralmente é provocado por excesso de tensão e pressão. Ela fica evidente em situações de stress prolongado e também no fracasso. A depressão Madeira é causada pela estagnação do Qi no Fígado

- Características dos pacientes com depressão tipo Madeira: São pacientes que trabalham duro, são ambiciosos e que subitamente perdem a motivação e a direção, por terem sido por algum motivo (geralmente o fracasso) forçados a abandonar uma ação (projeto, ambição, emprego, meta, etc.) muito desejada e assim perdem o sentido de viver.

- Sintomas presentes: frustração, sensação de opressão, falta de movimento, desgosto e irritabilidade, colapso e prostração, perda de propósito de vida e falta de visão perspectiva.

A acupuntura como alternativa de tratamento: A acupuntura, como tratamento complementar na depressão, tem-se apresentado com benefícios satisfatórios em sua terapêutica, eliminando os efeitos colaterais do uso de medicamentos específicos e garantindo a promoção e bem estar do indivíduo (PAIVA, 2011). Nos estudos de SERVAN-SCHEREIBER (2004), médico psiquiatra ocidental, foi constatado que a ação da acupuntura tem o mesmo ritmo da ação dos medicamentos antidepressivos aos quais os chineses haviam comparado.

A medicina chinesa, em sua essência, é contemplativa e empírica. Sua avaliação começa ao ver o paciente pela primeira vez. A agilidade, qualidade dos movimentos, tiques, odores, tom de voz, cores que se refletem na face, todos esses sinais podem ser observados antes mesmo que o paciente diga seu nome. Esses sinais são a manifestação da qualidade energético-sanguínea da pessoa, que possui correspondência com a saúde e a vitalidade de seu organismo.

No primeiro encontro com o paciente, o Ling-Shu ressalta a importância de tocar o espírito do paciente, pois é a realidade sutil que mantém e preserva toda a estrutura física. O tratamento então começa na avaliação, percebendo a fonte da desarmonia e, com sensibilidade, exige atuar no psiquismo do paciente.

Desta maneira, o tratamento realizado através da acupuntura como terapia complementar alcança os objetivos almejados pelo paciente deprimido, que muitas vezes não são demonstrados e sim implícito em seu comportamento frente às situações cotidianas e que se refletem em consultório. Os pontos destinados ao tratamento variam de acordo com a realização do diagnóstico correto, que irá definir qual o padrão de desequilíbrio energético a pessoa apresenta. Desta forma, a construção do plano de tratamento é individual. Porém existem alguns protocolos que podem auxiliar neste processo, no sentido de reestabelecer o livre o fluxo das energias, auxiliando o próprio organismo no processo de homeostase.

Porém, o tratamento é bastante amplo, ele não abrange somente o uso de agulhas, teria que haver uma mudança no estilo de vida e da percepção das situações ao redor. Modificar as relações com a Natureza e entre as pessoas, pois a Medicina Tradicional não trata uma doença, ela preocupa-se com o homem e seu contexto.

Conclusão: A acupuntura como técnica auxiliar no tratamento de quadros depressivos mostrou ser de grande eficácia. Além de ser de baixo custo como a grande maioria dos pesquisadores pontua, não causa efeitos colaterais, contribuindo para a adesão da paciente ao tratamento.

Atualmente, existem muitos artigos em relação ao tratamento da depressão através da acupuntura no contexto ocidental, tentando desmistificar essa doença, auxiliando no resgate da subjetividade do indivíduo e aceitação de seu sofrimento. A tentativa de quantificar as mudanças energéticas no organismo através de contagem de transformações bioquímicas, hormônios ou transformações celulares para demonstrar os mecanismos de ação da acupuntura, é um caminho para auxiliar na aceitação desta pratica no meio cientifico; já não é mais vista como placebo.

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