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Terça-feira, 13 de Novembro de 2018 - 13:31 - Atualizado em 13/11/2018 13:43

BURSITE TROCANTÉRICA DE QUADRIL: Busca de equilíbrio e retirada da dor através da acupuntura com a técnica Shu Antigos

Baseado no TCC da aluna: ELIANE GUIMARÃES MARTINS

BURSITE TROCANTÉRICA

O termo bursite trocantérica se refere a uma patologia que aparece na Bursa trocantérica. Sendo que a bursa é uma pequena bolsa ou tecido localizado na região proximal do fêmur, e é saliente lateralmente ao quadril. A região do quadril é formada por várias destas bursas, que podem inflamar e gerar dor. (Golding, 2001)

A bursite trocantérica também conhecida como síndrome da dor no trocânter maior é uma das doenças mais frequentes na região do quadril, apresentando uma grande variedade de sinais e sintomas. (Dani, 2005). Movimentos exagerados e repetitivos dos tendões e fáscias musculares deslizando sobre o trocânter maior, muitas vezes é a causa da piora dos sintomas ocasionando a inflamação da bursa. (Schwartsmann, 2014)

Segundo (David, 2001) a bursite trocantérica tem incidência maior no sexo feminino com idade entre 40 e 60 anos. A incidência na população geral é em torno de 10% a 25%, afetando em torno de 1,8/1000 pacientes por ano. 

Com frequência as pessoas com o diagnóstico de bursite relatam que o inicio da dor inicia na face lateral da coxa e nas nádegas, piorando o quadro diante de atividades como subir escadas, caminhar e correr ou quando se deita sobre o lado afetado da dor. Mudanças para a posição de pé e sentar-se com a perna afetada cruzada e atividades de impacto, também são exemplos que levam as queixas de dor. (Assad, 2014)

Como consequência, muitos pacientes acabam por limitar suas atividades da vida diária refletindo negativamente em sua qualidade de vida.

novembro, 2018, imprensa,
Bursite Trocantérica
                                                                                                                                       

1.2 BURSITE TROCANTÉRICA NA VISÃO ORIENTAL

Segundo (Auteroche, 1996) na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a dor é vista como consequência de interrupção de processos biológicos nos quais sua normalidade depende de duas substâncias: QI e Sangue (Xue), que são fundamentais para o funcionamento fisiológico do organismo e flui por todo ele de modo contínuo e ininterrupto. Quando fluem livremente não existe dor.

De acordo com Zhufan (2009) as inflamações podem ser causadas por trauma, excesso de tensão ou ataque de vento-frio-umidade, dificultando a função dos tendões e do fluxo de QI e do sangue (Xue) nos meridianos. Os principais elementos envolvidos são Madeira com fígado e vesícula biliar que são responsáveis pelos ligamentos e tendões, Terra com baço-pâncreas e estômago que são responsáveis pela estrutura muscular e Água com rim e bexiga que cuidam dos ossos e articulações.

Segundo Medeiros (2009) os problemas que envolvem as articulações e os músculos estão relacionados com traumatismos, invasão de vento frio ou umidade. Doença crônica há a estagnação do QI do fígado, estagnação de QI e do Sangue (Xue) e estagnação do QI do rim. Em um aspecto geral, a concepção das doenças segundo a medicina chinesa é diferente da ocidental, parte do equilíbrio energético do corpo. 

Segundo Maciocia (1996) a estagnação de QI e sangue (Xue) é caracterizada por dor severa, do tipo facada, que piora com o repouso e melhora com exercício moderado (embora possa piorar com esforço excessivo). Nos casos crônicos, traumas repetidos causam crises recorrentes de dor, especialmente se houver um fundo de deficiência do Rim.

A deficiência do Rim, segundo Maciocia (1996) causa dor crônica, é do tipo surda e surge em crises. Melhora muito com o repouso e piora mediante o cansaço. 

A invasão de frio e umidade a dor se constitui em forma de Síndrome da Obstrução dolorosa. (Maciocia, 1996)

Geralmente a dor no quadril é proveniente de invasão de frio e umidade. E se desenvolve muito gradualmente, com o passar dos anos. Segundo Maciocia (1996) raramente, a dor no quadril, ocorre na forma de episódio agudo. Para Maciocia (1996) quando há uma interação entre retenção de umidade e frio, estagnação de QI e sangue (Xue) e deficiência de Rim uma influencia a outra. A umidade enfraquece os rins gerando a deficiência do órgão, este obstrui a circulação de QI e sangue (Xue) na região causando estagnação de QI e sangue (Xue).

A acupuntura pode ser um caminho para o tratamento da bursite. Segundo Kurebayashi et al. (2009) as principais ações da acupuntura são os efeitos analgésicos, sedantes, homeostáticos, imunodefensivos, psicológicos e a recuperação motora do paciente.

Num contexto mais abrangente a acupuntura está inserida no conjunto de técnicas relativas à Medicina Tradicional Chinesa, que busca compreender e tratar as doenças a partir de uma visão integradora entre o corpo e a mente. (Vectore, 2005)

ESCOLHA DOS PONTOS (TÉCNICA SHU ANTIGOS)

Dentre as inúmeras técnicas existentes na acupuntura, a técnica escolhida para tratar a paciente neste estudo foi Shu Antigos. Esta técnica na visão da Medicina Chinesa, trata doenças internas, trata os canais de energia e normaliza as funções orgânicas, que se enquadra dentre os desequilíbrios avaliados na paciente deste estudo de caso.

Tendo em vista que a acupuntura proporciona equilíbrio entre Yin e Yang e os cinco elementos, na técnica Shu Antigos é possível tratar a doença pela “raiz” do problema alcançando resultados eficientes.

A técnica Shu Antigos é bastante conhecida, mas pouco utilizada. Para este estudo não foram encontrados artigos ou trabalhos científicos relacionados com o tema bursite trocantérica e Shu antigos.

Neste estudo de caso é preciso tonificar ou fortalecer um elemento que está enfraquecido ou em deficiência, que no caso é elemento Água. Segundo Maciocia (2015) deve-se tonificar a mãe conforme a Sequência de Geração, já que o filho está enfraquecido. O elemento metal é a mãe do elemento água e os órgãos relacionados são Rim (elemento Água) e Pulmão (elemento Metal).

Considerando que para tonificar o elemento Água (Rim), devemos tonificar o elemento mãe no próprio meridiano, o ponto correto segundo a técnica Shu Antigos é o ponto R7 (bilateral). O ponto R7 localiza-se a 2 cun diretamente acima da proeminência do maléolo medial, frente ao tendão do calcâneo. Também é importante tonificar o ponto elemento do meridiano da própria mãe (elemento Metal), o ponto correto é o P8 (bilateral). O ponto P8 localiza-se a 1 cun acima da prega do punho na lateral à artéria radial.

Metodologia:

Foi aplicado um questionário para avaliação do desequilíbrio energético e uma avaliação subjetiva da dor, onde a paciente relatava o nível de dor numa escala de zero a dez.

Após avaliação da paciente, onde ficou caracterizado o desequilíbrio energético de Deficiência no Elemento Água, deu-se início ao tratamento pela acupuntura, realizado sempre entre às 17:00h e 19:00h, com a frequência de 1 vez por semana, com a duração de 30 minutos cada atendimento.

O tratamento foi realizado durante dois meses totalizando 10 atendimentos, com a utilização de pontos Shu Antigos (ciclo de geração).

Os materiais utilizados foram: agulhas de acupuntura 0.25/30mm, álcool 70° e algodão.

Paciente A.G.M.A. 46 anos, casada, 3 filhos adultos, professora do ensino infantil e fundamental (trabalha manhã e tarde).

Submeteu-se a avaliação de Acupuntura, onde relatou que há pelo menos 10 anos tem as articulações inflamadas, há 5 anos sofre com dores nos quadris após progressivo aumento de peso, recebeu diagnóstico pelo médico ortopedista, de bursite trocantérica há 2 anos. A paciente relatou fortes dores que a impedia de deambular normalmente que apesar de vários procedimentos clínicos e fisioterápicos, não havia melhorado o quadro. A dor acontece durante o sono, às vezes acorda por causa da dor e também no final do dia mesmo em repouso. Sente frio nos pés tem que colocar meia para dormir, sente calor e transpira na cabeça à noite, sente dor de cabeça (no olho) perto de menstruar ou quando está cansada. Sente dor no abdome, mas não com frequência perto de menstruar, é uma dor que começa na lombar e irradia para frente, porém não sente cólicas.

O sono não é reparador, tem sono leve, dorme por dia de 6 a 7 horas. Se tem preocupações ou coisas para resolver, apresenta insônia. Tem preferência por salgados (molhos, queijos, massas); doce, só se for chocolate. Não sente sede, bebe somente pela manhã e à noite em casa, não gosta de nada gelado, nem nada muito quente, prefere na temperatura ambiente. Tem mioma no útero. E quanto ao aparelho urinário se a bexiga estiver cheia tem escape ao tossir.

Sente irritação, raiva, ansiedade, falta de paciência, a pele fica toda empipocada ou manchas vermelhas quando se irrita

Pinta os cabelos desde os 41 anos.

Exame físico

Palpação: dor no meridiano da bexiga do lado direito, ponto ashi na lombar direita, quadril ponto ashi no meridiano da vesícula biliar no lado direito.

Língua: Rosada sem saburra, fissuras horizontais e vermelha nas laterais.

Pulso direito: Forte e flutuante

Pulso esquerdo: Fraco e vazio na posição do Rim

Oito Critérios: Interior e exterior, calor falso, frio, deficiência, Yin

Substâncias Fundamentais: QI estagnado, QI deficiente, Xue estagnado, Xue do coração deficiente, distúrbio do shen.

Zang Fu: Fígado (Xue) e Rim (Yin)

5 Elementos: Água deficiente não nutre madeira

Tratamento: Mover QI e Xue, tonificar QI e Xue, tonificar Fígado e Yin do Rim.

Na avaliação subjetiva de dor, na escala de zero a dez, onde zero representa ausência de dor, de um à três dor leve, de quatro à seis dor moderada e de sete à dez dor intensa. A paciente relatou o número oito (dor intensa).

Resultados:

A bursite trocantérica pode ser tratada através da acupuntura, pois é uma técnica que tem ação direta sobre a função do organismo. Para Medeiros e Saad (2009) a analgesia através da acupuntura envolve a estimulação de nervos de pequeno diâmetro e limiar diferenciado, onde tais nervos mandam mensagens para a medula espinhal, ativando neurônios do tronco cerebral e do hipotálamo disparando mecanismos opióides endógenos, ou seja, receptores importantes na regulação da dor.

Referente ao quadro inicial da paciente neste estudo, após iniciar o tratamento ela já relatava melhora parcial de suas dores. A paciente observou principalmente, que houve uma melhora na organização dos pensamentos, na irritabilidade e tristeza que a dor causava.

Segundo Campiglia (2004) se o psiquismo (mente) estiver em paz, equilibrado, o ser estará menos sujeito e até mesmo isento de doenças, mesmo as de origem externa.

A partir do quinto atendimento, a paciente passou a relatar que sua dor passava de intensa para moderada, ou seja, de oito para seis segundo a escala subjetiva de dor.

Do sétimo até o décimo atendimento a paciente relatou melhora para deambular, caindo para a classificação 2 da escala subjetiva, ou seja, dor leve. Não houve retirada total da dor através do tratamento de acupuntura com Shu antigo. Porém a paciente relatou melhora na organização do pensamento, na vontade de fazer as atividades cotidianas e laborais, relatou mais desempenho de uma maneira geral.

Discussão:

A acupuntura trata além de bursite inúmeras doenças a alivia dores, pode ser usada também para prevenir o corpo de doenças, pois através de seus estímulos aumenta a energia do sistema imunológico, permitindo assim aumentar o tempo de bem estar e saúde do paciente. Segundo Yeng (2001) a acupuntura tem se mostrado muito eficiente para o tratamento de distúrbios relacionados a bursite e dores de origem muscular.

Para Yamamura (2001) a acupuntura tem uma ação direta sobre a função do organismo que se trata e concomitantemente atua indiretamente sobre todo organismo, com isso podemos utilizar a acupuntura como meio único de tratamento ou utilizar como coadjuvante de qualquer outra terapia.                                                                                                                                

Assim para Yamamura (2001) a acupuntura visa restabelecer a circulação da energia (QI) nos canais de Energia e dos órgãos e das vísceras e com isso, levar o corpo a uma harmonia de energia e da matéria.

Através da técnica Shu Antigos, Yamamura (2001) considera que no homem, cada órgão e víscera têm dentro de si a energia correspondente aos Cinco Elementos que é transmitida ao longo dos canais de energia principais e, destes, para a superfície da pele através de pontos específicos desta técnica.

Para este estudo não foram encontrados artigos que relacionavam o tema do estudo de caso com a técnica Shu Antigos, por isso não foi possível correlacionar comprovações se essa técnica seria realmente eficiente para tratar a bursite trocantérica de quadril.

Conclusão:

Através deste estudo de caso pode-se perceber que a acupuntura demostrou ser um tratamento adequado para o controle da dor, contribuindo para a melhora da qualidade de vida da paciente.  Apesar de os resultados terem sido positivos, observou-se que a técnica utilizada (Shu antigos) trabalhou a raiz do desequilíbrio da paciente, por isso, ela sentiu primeiro uma melhora das questões emocionais e psicológicas para depois relatar melhora nos quadris.

A acupuntura minimizou as dores no quadril da paciente tornando o quadro estável e equilibrado.

Neste estudo de caso, pôde-se observar também que, se na proposta de tratamento tivesse sido incluída uma técnica específica para retirar dor no primeiro atendimento, como a técnica Canal Unitário, por exemplo, que permite o conceito de equilíbrio (alto/baixo e esquerda/direita) a paciente talvez sentiria melhora da dor já no primeiro atendimento, pois esta técnica ao ser diagnosticado o canal unitário acometido tem-se que selecionar os pontos Manancial e Riacho, pertencente aos pontos Shu Antigos, para desobstruir o canal eliminando assim a dor.  A partir do segundo atendimento até o quinto, seria aplicada somente a técnica Shu Antigos para tratar a raiz de seu desequilíbrio energético.  No sexto atendimento voltaria a aplicar a técnica Canal Unitário para desobstruir o canal e facilitar o fluxo do QI. Do sétimo atendimento até o décimo atendimento, seria finalizado o tratamento com a técnica Shu antigos. Assim, poderia ser possível uma melhora mais expressiva ou até mesmo a retirada total da dor, pois dessa forma trataríamos tanto a raiz do problema como a dor nos quadris.  

No entanto, isso nos mostra que mesmo não tendo retirado a dor totalmente, ainda assim foi possível através do tratamento com acupuntura proporcionar qualidade de vida à paciente. Para tanto, é imprescindível que seja realizado um diagnóstico energético correto a fim de escolher a técnica adequada para cada caso em específico.

A acupuntura tem papel importante no tratamento e controle da dor, na manutenção da saúde, trazendo qualidade de vida ao paciente.

Com base nos resultados, pode-se concluir que a técnica Shu Antigos pode ser bastante eficaz no tratamento de bursite trocantérica, porém seu tratamento deve ser feito a longo prazo com no mínimo de 20 sessões/atendimentos semanais, para que se observe uma melhora das dores e desobstrução dos canais energéticos permitindo a melhora do quadro da paciente.

Portanto, pode-se concluir que os resultados obtidos com o tratamento através da acupuntura com a técnica Shu Antigos tornou o quadro da paciente estável e equilibrado, porém não retirou totalmente a dor nos quadris no prazo de 10 sessões/atendimentos semanais.

Autora do artigo: Profa. Ma. Luciana Mendes Vinagre

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