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Quarta-feira, 06 de Maio de 2020 - 10:22 - Atualizado em 06/05/2020 10:35

Acupuntura sistêmica associada a ventosaterapia como tratamento coadjuvante na melhora de hérnia discal

Artigo baseado no TCC da aluna Karina Vanessa C. Lagoa; para conclusão do curso de pós-graduação em Acupuntura, pelo CETN.

Introdução: A formação de uma hérnia de disco cervical, ocorre quando, parte de um disco intervertebral sai de sua posição norma, comprimindo raízes nervosas, que se ramificam e surgem a partir da medula espinhal. Um indivíduo pode desenvolver uma hérnia de disco, geralmente entre 30 a 50 anos de idade. Podendo ser decorrente de um trauma ou lesão no pescoço. seus sintomas variam, mas a dor é quase sempre apontada, principalmente como uma dor que irradia ao lado de várias partes do corpo. Os padrões de dor e déficits neurológicos são em grande parte determinados pela localização da hérnia de disco, mas geralmente, acomete a parte superior do corpo.

A coluna vertebral é formada por articulações compostas pelas vértebras e discos intervertebrais (que ficam entre as vértebras). Os discos intervertebrais são formados por um anel fibroso e um núcleo gelatinoso chamado de núcleo pulposo. Esse disco intervertebral serve como um amortecedor, absorvendo impactos que a coluna sofre diariamente como inclinação ou rotação da coluna, corridas, ou até mesmo se manter na postura ereta. Com o passar do tempo, o aumento e a sobrecarga exercida sobre esse núcleo, poderá fazer com que ele se desloque e rompa o anel fibroso que o mantém no local adequado, gerando um extravasamento, podendo gerar uma compressão da inervação, resultando em hérnia de disco cervical, sendo mais comum na região entre as vértebras C6 e C7, podendo gerar, além da dor que é o principal sintoma, que varia dependendo da intensidade da lesão causada podem ser encontrados outros sintomas associados como: irradiação da dor para membros superiores e mãos, formigamento, alteração de sensibilidade, dificuldade para dormir, cãibras, redução de força e até mesmo incapacidade de realizar movimentos na região afetada.

A Acupuntura por sua vez, oferece benefícios significativos para pessoas que sofrem com hérnia de disco, devido aos sintomas como: muita dor, dificuldade de mobilização, impossibilidade de realizar tarefas simples do dia a dia. Sua ação se dá através da inserção de agulhas, que atuam sobre a energia do corpo (QI) para manter o equilíbrio energético, aliviando a dor, tratando os pontos de inflamação que se formam pela degeneração dos discos. Para tanto, deverão ser eliminados os bloqueios de fluxo de sangue decorrente da dor local. Este estudo teve como principal objetivo avaliar a eficácia do tratamento com acupuntura sistêmica em associação com a ventosa, como importante potencializador para a melhora da qualidade de vida, assim como retorno às atividades e alívio dos sintomas no momento de agudização do quadro álgico. 

Para a Medicina Chinesa, a hérnia cervical ocorre por uma desarmonia entre o Elemento Água e o Elemento Terra. O elemento Água por estar representada pelo meridiano do Rim e este ter entre as suas funções a formação destas raízes nervosas e Terra por estar representado por Baço - Pâncreas e estes ter entre as suas funções manter as estruturas do nosso corpo em seus devidos lugares. Além destes, podem estar envolvidos pela localização da dor, os meridianos da Bexiga (Água), Vesícula Biliar e Fígado (Madeira) e Estômago (Terra).

Todas as doenças crônicas, independente dos órgãos afetados acabam afetando o Rim (Yin ou Yang do Rim). Com o Yang do Rim deficiente o QI não é suficiente para fortalecer os ossos e as costas causando lombalgia e debilidade nas pernas e nos joelhos. Os sintomas de desequilíbrio energético nos Rins, incluem dores lombares, infertilidade, impotência ou desejo sexual excessivo, problemas urinários, fragilidade dos ossos e dentes, zumbido ou surdez, edema ou asma. De acordo com a fisiologia chinesa, os Rins são responsáveis pelo desenvolvimento de ossos e dentes fortes. Quando os rins estão deficientes, os ossos tornam-se mais quebradiços e a saúde dental deficitária.

O Baço domina os músculos e os quatro membros. Como o Baço é responsável por transformar alimento em QI (energia) e sangue e transportá-los por todo o corpo, o funcionamento adequado do órgão é essencial para a manutenção da massa muscular e de membros fortes. Uma pessoa com QI do Baço deficiente normalmente sente fraqueza e fadiga nos membros.

As Disfunções Musculoesqueléticas são causadas pelo desequilíbrio energético que atinge os músculos, tendões e ossos. Nesse ambiente se caracteriza o enfraquecimento da resistência energética a agressões externas tais como: excesso de uso ou traumas diretos (pancadas ou contusões).  O Rim através da sua energia ancestral ou Jing QI nutre o tecido ósseo e o Baço, através da sua energia Yin, nutre e “sustenta” os músculos. Se o QI do Baço - Pâncreas for deficiente, o sangue poderá sair dos vasos resultando em hemorragias, sangramento uterino crônico, hematomas, entre outros.  O QI refinado não poderá ser transportado para os músculos e a pessoa se sentirá cansada, os músculos ficarão fracos e, mais suscetíveis a lesões e nos casos mais severos, poderão atrofiar. Portanto, o Baço atua ao mesmo tempo, na manutenção do tônus muscular e na força dos membros.   

CASO CLÍNICO: Paciente de 64 anos de idade, sexo feminino, com histórico de dor na região cervical à esquerda há três anos, no início parecendo um torcicolo, com piora dos sintomas há um ano. Queixa de dor irradiando para membro superior, sensação de peso, queimação durante repouso, formigamento na mão à esquerda além de relatar uma sensação de “repuxando o braço para cima”. Antes de procurar ajuda médica, fez uso de emplastos à base de salicilato de metila, pois o aquecimento gerava sensação de analgesia temporária e utilização de paracetamol de 750 mg para alívio da dor.

Com a persistência dos sintomas, procurou um médico, para avaliar a sua situação. Foi solicitado Ressonância Nuclear Magnética da Coluna Cervical onde o resultado foi:  Alterações degenerativas da coluna cervical, cursando com estreitamento do canal vertebral nos níveis de C4-C5 e C5-C6 e dos forames neurais de C4-C5 e C6-C7 à esquerda e bilateralmente em C5-C6, mais evidente à esquerda.

Foi indicado tratamento conservador, primeiramente com alongamentos e medicamentos anti-inflamatórios, que fizeram efeito para alívio dos sintomas por apenas 15 dias. Retorno ao médico, como as dores, desconforto e dificuldade para tarefas do dia a dia persistiam, foi indicada manutenção dos medicamentos, alongamentos e fisioterapia para redução da dor e retorno em 1 mês. O alívio dos sintomas foi ocorrendo aos poucos, porém, nos dias mais frios, em situações mais estáticas ou dias que se esforçava um pouco mais a paciente relata que as dores ¨desapareciam e voltavam¨.

Foram meses com essa mesma sensação e relato de dores, o uso de analgésicos e anti-inflamatórios pareciam não dar o resultado desejado, quando a paciente teve o seu primeiro contato com a acupuntura e optou por iniciar um tratamento.

A paciente foi então avaliada e, como queixa principal, relatou dor em região cervical esquerda irradiada para o ombro em sensação de fisgada, que piora com vento e umidade, seguida de mais alguns sintomas e sinais como: calor na cabeça, não transpira, não tem sede, tinido nos ouvidos às vezes, preferência por picante e azedo, acorda durante a noite para ir ao banheiro. Após avaliação e mais o relato dos sintomas, a paciente teve como diagnóstico energético: Deficiência QI do Rim, Deficiência do Yang do Rim e Estagnação do Xue do Fígado.

A técnica escolhida para tratamento foi a acupuntura sistêmica associada a técnica de ventosaterapia, realizada em determinadas regiões locais e adjacentes a dor, na intenção de aumento da circulação sanguínea e relaxamento muscular.

Foram realizadas duas sessões por semana, totalizando 10 sessões. Iniciava-se com a colocação das ventosas e em seguida, eram inseridas agulhas do tamanho 0,25 x 15 nos pontos relacionados, bilateralmente e deixando agir por 20 minutos:

E11 Qishe Kisha (Estomâgo): Torcicolo, Inflamação e Dor de garganta, Rigidez e Dor na nuca             

ID13 Quyuan Kyokuen (Intestino Delgado): Dor e Contratura na escápula, Ombros, Costas e Braços

TA15 Tianliao Tenryo (Triplo Aquecedor): Dor no Ombro e Braço, Rigidez aguda do Pescoço

VB20 Fengchi Fuchi (Vesícula Biliar): Nódulos no Pescoço, Dor e Rigidez no Pescoço, Dor no Ombro, Tinido e Vertigem

VC6 Qihai Kikai (Vaso Concepção): Esgotamento, Distúrbios Urinários e Cansaço

VC17 Tanzhong Danchu (Vaso Concepção): Cansaço e Neuralgia Intercostal

B11 Dazhu Daijo (Bexiga): Doenças ósseas, Rigidez da coluna, Dor na escápula, Dor de cabeça e Tontura

B23 Shenshu Jinyu (Bexiga): Problemas ósseos e Zumbido  

VG4 Mingmen Meimon (Vaso Governador): Problemas de Deficiência Crônica e Severa, Envelhecimento Precoce, Tonturas

R3 Taixi Taikei (Rim): Insônia, Tinido, Urina Frequente

F3 Taichong Taisho (Fígado): Relaxa os Tendões e Músculos, Hérnias Jianneiling Jianqian (Extra) Dor e Limitação de Mobilidade de Ombro, Peso e Parestesia do Membro Superior, Ombro Congelado

Paciente foi avaliada uma vez por semana, ou seja, a cada duas sessões, e na escala de dor referiu 09 na primeira semana e 02 na última semana de tratamento. 

1ª Semana:  Relatou muita dor e desconforto durante terapia e não sentiu muita melhora. 

2ª Semana:  Referiu ter passado melhor a semana, com um alívio sutil para dormir.

3ª Semana:  Referiu acordar mais disposta a realizar suas tarefas diárias e sensação de região cervical mais leve e flexível.

4ª Semana: Diminuição da sensação de formigamento nas mãos, consegue virar com maior facilidade a cervical e não sentiu mais dor após a realização das sessões semanais.

5ª Semana: Referiu melhora da qualidade de vida, alívio da dor, do formigamento nas mãos e não tem mais a sensação de fisgada ou membro ¨repuxando¨.

Resultado: A paciente relatou melhora mesmo durante os intervalos dos finais de semana, onde permanecia sem as sessões e essa sensação de bem estar, pela ausência de dor, tornava a paciente mais disposta, alegre e expressiva.

A ventosaterapia em associação com a acupuntura sistêmica, teve um  enorme valor na melhora da qualidade de vida da paciente, que no início de cada semana, se auto avaliava e demonstrava mais interesse em suas atividades diárias, devido ao relaxamento causado pelo aumento da circulação sanguínea e oxigenação dos tecidos, referiu melhora na qualidade do sono, acordou com menos frequência para ir ao banheiro, além de relatar menor recidiva das dores principalmente na região cervical, onde passou a realizar um movimento de rotação cervical mais amplo.

Porém, não existem muitos estudos científicos sobre o uso de acupuntura em patologias degenerativas. A variedade dessas doenças e a sua raridade faz com que a experiência clínica muitas vezes seja pobre, pelo fato de não existirem informações seguras acerca da utilização da acupuntura em muitas patologias  degenerativas.       

Autora: Carla Ceppo

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